
O número que decide nem sempre está na planilha
Logo depois do resultado do segundo turno, circularam vídeos e comentários dizendo que o resultado era um "desastre matemático". As projeções acompanhadas por parte dos analistas mostravam Flávio Bolsonaro à frente, e Lula terminou com 4,4 milhões de votos a mais. A pergunta que se repetia era: de onde saíram essas pessoas?
Política à parte, a pergunta é ótima. E a resposta tem tudo a ver com gestão de saúde.
As pessoas que ninguém estava contando
No primeiro turno, Flávio terminou com cerca de 2,1 milhões de votos a mais que Lula. A abstenção foi de 21,08%.
No segundo turno, a abstenção caiu para 19,21%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foram quase 3 milhões de eleitores a mais votando. É um movimento raro, porque historicamente a abstenção sobe no segundo turno.
Esses eleitores não apareciam em nenhuma conta do primeiro turno, porque simplesmente não tinham votado. Uma das estratégias da campanha de Lula foi justamente chamar quem ficou em casa e não quis votar. Não sabemos em quem cada um desses eleitores votou, mas o tamanho desse grupo é maior que toda a diferença do primeiro turno. Isso justifica a diferença de votos.
Repare no que isso significa. Uma análise que olhava apenas para quem já tinha votado tinha um olhar equivocado para o retrato. O dado que decidiu a eleição não estava na base, mas no comportamento das pessoas.
Projeção de comportamento não é garantia
Há um segundo ponto, tão importante quanto o primeiro. Mesmo quando a análise considera o comportamento, ela trabalha com probabilidades, e não com certezas.
Parecia razoável supor que quem votou em outro candidato de direita no primeiro turno manteria o voto nesse mesmo campo no segundo. Em média, é o que costuma acontecer. Cada eleitor, porém, decide movido por muitos fatores: a rejeição a um dos lados, os acontecimentos da última semana de campanha, as conversas em casa, a disposição de sair para votar num domingo chuvoso. Basta que uma parcela desses eleitores escolha de forma diferente do esperado para o cenário mudar.
Na saúde acontece o mesmo. A probabilidade ajuda a orientar as decisões, mas não determina sozinha o desfecho. Um paciente com indicação clara de tratamento pode não aderir à terapia. Um quadro que parecia estável pode se agravar sem aviso. Uma cirurgia simples pode evoluir com complicações e levar a uma internação prolongada em UTI.
Cenário não é torcida
Projeção bem feita considera múltiplos contextos, e não apenas aquele que favorece quem está analisando. Quando a leitura dos números parte da conclusão desejada, o cenário vira torcida.
Na gestão de saúde acontece o mesmo. Planilha de sinistralidade mostra o que já foi pago, sempre olhando para o retrovisor. O que vai acontecer depende de gente: de quem está adoecendo, de como uma família reage a um diagnóstico grave, de como um médico conduz o caso, de como um juiz costuma decidir.
Entender comportamento humano e resposta biológica é o que diferencia o gestor de saúde de quem apenas analisa números. É esse olhar que permite enxergar o custo antes que ele exista em qualquer relatório.
Um caso que ainda não estava em lugar nenhum
Para exemplificar, há alguns anos, fui acionada para analisar a negativa de uma operadora para uma solicitação de tratamento com onasemnogeno abeparvoveque, uma terapia gênica.
A negativa tinha fundamento. A Diretriz de Utilização (DUT) da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) prevê a cobertura obrigatória para crianças com atrofia muscular espinhal (AME) tipo 1 de até 6 meses de idade. A criança já tinha passado dessa idade, embora ainda estivesse dentro da faixa prevista em bula. Do ponto de vista contratual e regulatório, a operadora estava no seu direito.
Repare que ninguém estava falando de custo, sinistralidade ou reajuste. Só queriam saber se aquela negativa era pertinente.
Mas eu sabia o que ia acontecer. Na época, essa terapia gênica era conhecida como o medicamento mais caro do mundo, tinha acabado de entrar no Rol da ANS e era usada no tratamento da AME.
Por ser uma doença degenerativa, e o tempo pesa contra a criança. Uma família diante desse diagnóstico vai fazer tudo ao seu alcance para conseguir o tratamento, inclusive ir à Justiça. E, em casos assim, os tribunais costumam decidir a favor do paciente quando o medicamento tem registro e indicação em bula, como era o caso. Escrevi sobre esse limite do Rol na edição sobre as negativas do plano de saúde.
Na leitura jurídica, a negativa era pertinente. Na leitura estratégica, ela levaria a um processo com altíssima probabilidade de perda, mais caro e mais desgastante para todos. Nosso papel, como gestores médicos da corretora, é alinhar os pontos com a empresa e a operadora e levantar todas as possibilidades de ação, buscando a solução de menor impacto para todos.
O custo estimado do tratamento era de cerca de 6 milhões de reais, e a empresa precisava se preparar para esse impacto no orçamento.
Repare: aqueles 6 milhões ainda não existiam em lugar nenhum. Não estavam na fatura, não estavam na base de sinistro, não estavam no relatório. Mas quem conhece o comportamento das pessoas e a evolução da doença já sabia que viriam.
No fim, a criança recebeu o medicamento, a empresa se preparou, a corretora negociou o melhor acordo possível com a operadora, e o benefício seguiu intacto para a empresa.
O que levar para a sua carteira
Olhe para quem ainda não aparece nos dados. Casos graves recém-diagnosticados, gestações de risco, tratamentos que vão começar. O custo de amanhã costuma estar na informação clínica de hoje.
Teste cenários que contrariam a sua expectativa. Se a projeção só funciona no cenário favorável, ela não é projeção.
Trate probabilidade como probabilidade. Tendência de comportamento orienta a decisão, mas não substitui o acompanhamento de perto.
Antecipe a judicialização. Quando a negativa é tecnicamente correta, mas o desfecho judicial é previsível, o diálogo costuma sair mais barato que o processo. Quando há divergência técnica, a junta médica desempatadora é um caminho.
Leve o número para a mesa antes da fatura. Empresa avisada consegue planejar orçamento, e corretora com tempo consegue negociar.
Preserve o sigilo. Sinalizar o impacto de um caso não exige expor a pessoa. O que chega à empresa é o custo estimado e a condução, nunca o nome nem o diagnóstico.
Fechando
Os números contam o que já aconteceu. Quem decide bem é quem entende o que as pessoas vão fazer a seguir, sabendo que elas nem sempre fazem o esperado.
No INKI, fazemos a gestão médica de carteiras para empresas, corretoras e consultorias de benefícios. Nossos médicos leem a informação clínica antes de ela virar fatura, antecipam casos de alto custo e risco de judicialização e levam ao comitê o impacto estimado, com indicadores agregados e respeito ao sigilo.
Se quiser conversar sobre como isso se aplica à sua empresa ou à sua carteira de clientes, fale comigo. Será um prazer traduzir em ação prática.
Publicado originalmente em 26 de outubro de 2026 na newsletter Gestão de Saúde Traduzida, no LinkedIn, por Luciana Shimizu Morya.
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